A Lourinhã é uma das três regiões a produzir aguardente DOC na Europa e é na Adega Cooperativa da Lourinhã que tudo acontece

A Adega Cooperativa da Lourinhã (ACL), quando foi fundada em 1957, dedicava-se essencialmente à produção de vinho tinto e branco, principalmente o famoso vinho leve.

Apenas em 1992 surgiu a Denominação de Origem Controlada DOC e a adega passou a dedicar-se exclusivamente à produção de aguardentes vínicas.

Para tal, a ACL conta hoje em dia com cerca de vinte de sócios que ainda produzem quase exclusivamente para a adega, onde são destilados aproximadamente 17.000 litros de aguardente vínica!

DOC Lourinhã

O que é uma aguardente vínica e como é produzida?

Aguardente vínica é resultado da destilação de vinho, idealmente de baixo teor alcoólico e elevada acidez.

É uma bebida com enorme potencial de envelhecimento e por isso é deixada a envelhecer em barricas de madeira por vários anos.

A Lourinhã, a par de Cognac e Armagnac em França, é uma das 3 regiões demarcadas da Europa para produção de aguardente vínica.

Para aprender sobre este néctar, fui mesmo visitar a Adega Cooperativa da Lourinhã, inserida na região vitivinícola de Lisboa.

Foi a Nádia Santos que me recebeu e começou por explicar que a produção deste destilado na região de Lisboa começou logo depois das invasões francesas, no início do século XIX.

Após a saída das tropas, quando alguns soldados de Napoleão ficaram por cá e, tal como faziam em França, começaram a destilar o vinho, ensinando aos locais esta técnica.

Diz-se que a aguardente servia, não só para beber, mas como para desinfetar feridas de guerra.

Por essa altura, surgiram muitas destilaria na região, de tal forma que os produtores de Vinho do Porto vinham à Lourinhã comprar aguardente para fortificar os seus vinhos.

Como é que se faz a Aguardente da Lourinhã?

Começa pela vindima que acontece quando as uvas atingem um determinado teor de açucares que irá dar origem a vinhos com cerca de 10% de álcool, que é o que se pretende para uma aguardente: além de castas com boa acidez, querem-se vinhos base com pouco grau alcoólico.

Hoje em dia, de entre as castas autorizadas na região demarcada, a Adega Cooperativa da Lourinhã utiliza as Brancas Malvasia-Rei; Fernão Pires; Seara Nova; Vital e Tália, e nas castas Tintas: Tinta-Miúda e Castelão, que são consideradas as melhores para produzir aguardente.

A vinificação dá-se de forma tradicional, mas sem adição de sulfuroso, ou seja, sem sulfitos. Claro que é importante que a uva esteja em bom estado para produzir um vinho sem quaisquer defeitos.

A vindima acontece geralmente no final do mês de agosto, início de setembro.

adega cooperativa da lourinhã

De seguida, faz-se a destilação que, tal como a vinificação, também tem que ser realizada dentro da região demarcada. Por norma a destilação ocorre nos meses de Outubro e Novembro.

Na destilação é utilizado um sistema contínuo em coluna de cobre que atinge um grau alcoólico entre os 74 e 77%.

Depois de destilada, a aguardente passa por um período obrigatório de envelhecimento em barricas de madeira no mínimo de 2 anos. Ao longo deste tempo em barrica, o álcool vai diminuindo.

Mais tarde, quando se fazem os lotes, adiciona-se água desmineralizada até atingir o valor de 40%vol.

DOC Lourinhã

O envelhecimento acontece em barris de carvalho português, carvalho francês e Castanheiro, com capacidade inferior a 800 litros, e com diferentes queimas no interior do barril: tosta ligeira, média ou forte (lá atrás tenho um episódio sobre barricas para quem quiser relembrar!)

Existem diferentes períodos de envelhecimento em barrica, uns mais longos que outros, e é isso que confere à aguardente as diferentes classificações e níveis de qualidade.

O estágio em madeira vai influenciar na sua cor, suavidade e aromas, ao longo dos anos.

adega cooperativa da lourinhã

As menções tradicionais utilizadas na indicação da rotulagem são:

  • VS ou Very Superior quando tem um envelhecimento igual ou superior a dois anos
  • VSOP ou Very Superior Old Pale para as aguardentes envelhecidas por quatro anos ou mais
  • XO ou Extra Old, menção reservada para cinco ou mais anos de envelhecimento

Apesar de ser permitido a adição de alguns corantes, como por exemplo o caramelo enológico, a Adega da Lourinhã opta por deixar a aguardente no seu estado puro.

Em Portugal, vinhos como Porto e Moscatel são fortificados com aguardentes vínicas. Neste caso, a Aguardente da Lourinhã é usada para fortificar o Vinho de Carcavelos!

E como é que se deve beber uma Aguardente da Lourinhã?

Segundo quem sabe, não se deve beber muito fria nem adicionar gelo, aliás, até é recomendado aquecer um pouco o copo com as mãos.

Mas acompanha perfeitamente com frutos secos, chocolate e doces conventuais. É muitas vezes usada para aromatizar sobremesas.

Existe também um cocktail chamado Laurinianum Sour feito com aguardente da Lourinhã, claro está, sumo de limão, açúcar e clara de ovo para ficar cremoso.

Ou então, aguardente a temperar uma mousse de chocolate negro, por exemplo!

A Adega Cooperativa da Lourinhã organiza visitas guiadas para quem queira saber mais sobre este tesouro, mas sempre com marcação.

A visita começa na sala principal onde é feita a explicação da Lourinha como região DOC para aguardente vínica em Portugal.

Seguimos para as incríveis caves da Adega com barricas de todas as idades, passagem pelos antigos depósitos de vinho e ainda pela sala de rotulagem das garrafas, trabalho feito à mão e com muita dedicação.

Eu adorei a visita guiada que fiz com a Nádia Santos, oficialmente técnica de lote, mas acima de tudo, é a cara da ACL! No final da visita, não podia faltar a prova de aguardentes.

De todas, claro que a que mais gostei foi a XO! Esta tem alguns aromas de fruta, como laranja amarga, assim como baunilha, café e frutos secos. Na boca, sente-se obviamente o álcool, mas com uma textura suave e um ligeiro sabor fumado no final.

O que não faltam são formas de saborear a tão famosa Aguardente da Lourinhã, sendo que a melhor de todas é durante uma visita à Adega Cooperativa da Lourinhã.